Recuperando a Função da Palavra na Sala de Aula

Escola Ágora

Escola Ágora

Quando um aluno entra num espaço escolar, que dividirá nas horas seguintes, geralmente, com muitos colegas, seu pensamento está repleto de palavras; seus ouvidos, também; sua boca, cheia delas… Porém, nesse tempo que dura o período de aulas, é muito provável que ele se mantenha calado, apenas ouvindo – outras palavras; no máximo, escrevendo algumas delas. Estas, muito provavelmente, não são dirigidas a ninguém para quem ele precisasse, de fato, escrever. As palavras escritas nas aulas são, em geral, encomenda de um professor que propõe esse exercício para o aluno… Escrever! Para quem? Para ninguém, de verdade… A respeito de quê? De nada que lhe diga muito respeito…

Esse parágrafo inicial apresenta, deliberadamente, um tom crítico e até mesmo um pouco amargo, que pretende despertar os professores, de maneira geral, para a função da palavra como mediadora das relações na sala de aula e de promotora do desenvolvimento humano de cada ser que lá se encontra.

O grande educador Paulo Freire dizia que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Vamos no aproximar um pouco mais desse pensamento profundo e enormemente humanitário: se nosso aluno desconhece determinado vocábulo, é porque este nunca foi significativo na vida desse indivíduo, ou seja, ele nunca respondeu a uma experiência vívida, ou vivida, por essa pessoa. Certa vez, conversando com um pedreiro, eu lhe pedia que fizesse uma lousa na parede de uma sala de aula. Ele, solícito e risonho, me respondeu: “Eu faço o que a senhora quiser, só que não sei o que é lousa…” Recorrendo ao grande educador pernambucano, citado no início deste parágrafo, diríamos que “lousa” não fazia parte do mundo de Manoel, o pedreiro. Então, por que ele deveria conhecer essa palavra? Nosso universo vocabular apenas se amplia quando nossa vivência se expande, pois o mundo verbal exprime o mundo real. A língua é instrumento de produção e de transmissão de conhecimento.

Voltemos àquele aluno que chegou à escola com a cabeça cheia de palavras (ele tem, certamente, todas as de que precisa para expressar a si mesmo e a tudo que o cerca). Devemos trabalhar na perspectiva de ampliar esse universo, para que nosso jovem precise de mais palavras, queira exprimir e traduzir mais informações, impressões, sentimentos sobre o que está à sua volta. Outro aspecto a considerar é o respeito à comunidade lingüística a que pertence essa criança, ou esse jovem. Muitas vezes, ele não conhece a norma culta, a forma correta de expressar-se. Falar e ouvir, perguntar e responder, dialogar, trocar idéias, organizar e construir um pensamento, podem ser ações comparadas ao erguimento de um muro: imbricam-se num desenho nem sempre ordenado, numa seqüência nem sempre adivinhada, mas, lá está a obra, a parede levantada. Quem tem riqueza, constrói um muro de muitos tijolos, de materiais sofisticados; quem não as possue, faz o muro possível, menos eficiente, com material mais simples, mas, sempre, um muro! Embora não devamos nos conformar com as falhas de nossos alunos em relação ao padrão formal da fala, precisamos contextualizá-lo no grupo social diante do qual nos encontramos.

O grande filósofo Celso Cunha foi consultado por um jornalista que o entrevistava: “Afinal, professor, o correto é “Eu vi ele”, ou “Eu o vi”? O mestre respondeu, de imediato: “Na Academia Brasileira de Letras, o primeiro está errado. Mas, numa favela, o segundo também está!”

Dar voz ao aluno, na sala de aula, é ajudá-lo a construir sua cidadania, é promover seu crescimento como ser humano – organizar o próprio pensamento, expressá-lo; ouvir o do colega; concordar, ou discordar dele, são situações que instigam a reflexão, o auto-conhecimento – já que é no espelho do outro que me reconheço, igual ou diferente dele, o desenvolvimento da auto-estima. Se a estrutura da instituição é desfavorável ao grande fórum, criemos vários menores, dentro do maior. Proponha-se que cada aluno traga um tema, que cada conjunto de alunos registre as palavras mais significativas surgidas durante o debate, que encontre sinônimos para elas, que construa frases usando-os, que… que… que… Permitir que nosso aluno faça uso de suas próprias palavras para expressar sua visão de mundo é re-significar o sentido tão esvaziado, tão falido dos vocabulários, é recuperar seu frescor, é reanimar suas cores desmaiadas.

Terezinha Fogaça de Almeida

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