A construção de cabanas como favorecedora do autoconhecimento

IMG_1465Olhar ao redor, escolher um espaço, começar a coleta de materiais para a construção, dedicar o tempo em que poderia estar brincando ou descansando à tarefa árdua de arrastar, cavar, fincar, amarrar, revestir a estrutura erguida para poder abrigar-se sob ela e, enfim, poder dizer “Construí minha cabana!” é experiência singular na vida de uma criança, tenha ela seis, sete ou oito anos.

Protegido no espaço que concebeu e edificou com as próprias mãos, em parceria com outras… A partir daí, você tem o SEU lugar no mundo. O que deve representar esse feito no imaginário de uma criança?

Construção finalizada, é hora de ocupá-la: reunir os amigos, contar histórias, enxergando o mundo de dentro da própria cabana – a perspectiva única do olhar de cada criança a partir da referência espacial que ela, e somente ela, imaginou, planejou e realizou sobre o lugar vazio onde antes nada havia, a não ser mato, gravetos, folhas caídas e, naturalmente, o livre pensar e o sonho.

As cabanas são obras coletivas onde, a cada dia, são recriados signos e rituais da humanidade – o desejo, a vontade, o encontro, o empreendimento, o esforço, a obra, o acúmulo de bens – as construções também servem para guardar o patrimônio de seus proprietários – pinhas, olhos-de-cabra, entre outras riquezas…

Diante dessas considerações, surge a pergunta “Por que gastar tempo e esforço erguendo cabanas? Por que não, simplesmente, brincar ao ar livre, ou aproveitar as salas já existentes que se encontram sempre abertas, para eleger seus esconderijos, seus locais prediletos?

Por que é necessário reunir-se a outras crianças, coletar materiais, transportá-los? Qual a razão de se escolher pesados galhos que, às vezes, estão muito distantes do ponto determinado para a edificação de sua cabana e deverão ser arrastados com esforço? Por que erigir essa construção? Por que ocupá-la?

Qual a função de imaginar uma cabana, vislumbrá-la, desejá-la?

Marcar território? Fincar raízes? Defender-se de animais? Estabelecer um local privado dentro de um espaço público?

Criar um lugar protegido, onde não se possa ser “alcançado” pelo papel de aluno, ou seja, onde se possa ser o que se é?

As questões são infindáveis, as interpretações, também. O que importa, porém, é que nestes trinta e um anos de Escola Ágora, nossas crianças e jovens vêm construindo cabanas, numa articulação exclusiva entre pares, sem interferência ou ingerência de adultos.

Nosso mérito foi resistir, ao longo desse tempo todo, a pressões: de famílias ou, de professores, que sugeriram que diminuíssemos a “hora livre”, nosso tempo pós-lanche ou pós-almoço, em que os alunos podem circular livremente por um determinado espaço, sem a tutela de professores, ou de bedéis.

A proibição de brinquedos vindos de casa, bem como de jogos eletrônicos e celulares, favorece e promove, de forma significativa, o espírito empreendedor de nossas crianças, que encontram espaço e dispõem de tempo suficiente para ocupá-lo.

Em março de 1985, nossos primeiros alunos começaram construindo túneis. Sob os pinheiros, nos barrancos, camuflados sob o “feno” (as folhas ou “agulhas” caídas dos pinheiros), as passagens subterrâneas tornavam-se cada vez mais longas… Com a chegada das chuvas, lá por outubro, nós, adultos, decidimos que os túneis não podiam mais ser frequentados, sob risco de desmoronamento. E, então, a edificação das cabanas tomou grande impulso. A partir daí, não houve um ano sequer que não tenha produzido várias construções dessa natureza. Uma observação muito relevante, porém: nenhuma cabana é construída pelos alunos logo no início das aulas – parece que eles precisam de um tempo de nomadismo, conhecendo o espaço, explorando-o através das mais variadas brincadeiras, até chegar a um momento de olhar para ele com outros olhos, vislumbrando aí a possibilidade de construir sua cabana.

Outra percepção bastante acentuada é a de diferença de estrutura entre as cabanas masculina e feminina: os meninos, quase sempre, erguem uma estrutura mais sólida, mais imponente, fálica, até. O interior de suas cabanas, porém, é econômico em objetos, enfeites, acessórios. Em contrapartida, o espaço feminino, de estrutura bem mais modesta, abriga “sofás”, flores, tapetes de folhas, objetos de sucata recuperados e transformados em adornos…

Ao longo da vida da Ágora já presenciamos as funções de “feitor” (alguém que, de prancheta em punho, anotava a disposição e o engajamento dos construtores das cabanas), já observamos, numa cabana feminina, uma população altamente hierarquizada – operárias, chefes, candidatas a chefe… Durante essas décadas, vimos surgir o condomínio de cabanas, o segurança de cabanas, o capitalista selvagem – dono de muitas cabanas…

Piaget dizia que “a criança explica o homem”, ou seja, ao longo de nossa infância, revivemos, para poder compreender e incorporar, a história construída por nossos antepassados. Eu acrescento que também incorporam aquilo que podem observar e captar dos adultos que os rodeiam.

Numa época de pragmatismo exacerbado (Pra que serve esse estudo? É para nota essa lição? Vai cair na prova?) assistimos a crianças abdicando do ócio para trabalhar; num tempo de mágicas virtuais, observamos o esforço físico para vencer paus e pedras… Num período em que os adultos oferecem pouquíssimas oportunidades para as crianças agirem por conta própria, vemos o surgimento diário de novas construções, creditadas, exclusivamente, ao empreendimento infantil…

Afinal, por que as crianças fazem cabanas? É impossível afirmar um ou outro motivo.

Como espectadora privilegiada desse evento, porém, tenho algumas hipóteses…

As crianças fazem cabanas porque estão estreando na vida em sociedade – deixam de ser “filho único” ou “filho caçula”, para tornarem-se “aluno/a de tal série”, por exemplo. Como seres sociais, então, querem se reconhecer em outra dimensão, em outras relações. Para tanto, devem ocupar um novo espaço, ainda a ser idealizado, concebido e edificado. No caso, com recursos próprios, individuais, naturais, utilizando a própria engenhosidade, capacidade e habilidade na empreitada. É um espaço imprevisível, circunstancial, indomado.

Acredito, também, que as crianças façam cabanas para afirmar seu potencial diante da comunidade a que pertencem, projetando, de certa forma, seu lugar na sociedade futura, na grande obra que configura a cultura humana.

Por fim, penso que as crianças façam cabanas para abrigar-se, para guardar seus pensamentos, os próprios sonhos, temores, sentimentos; para que, isolados e protegidos do espaço externo, possam encontrar a si mesmos, seus próprios corações e mentes…

Terezinha Fogaça de Almeida

Abril de 2016.

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