HORA LIVRE/MEMÓRIAS

IMG_1599Que saudade de construir cabanas no meio da floresta, de trabalhar com obras e sonhos, construir nossas próprias casas concretas por serem reais, de matéria bruta natural e poderosa, e encantadas por representarem um mundo inteiro, da cor, tamanho e cheiro que quiséssemos que fosse. Castelos, submarinos, casas de um, dois, três andares, tocas, ocas, mesquitas, capelas, templos, espaçonaves…

Compreender em grupo o espaço, observa-lo, calcular o tamanho de cada galho, arrastá-los por barrancos acima e abaixo, encontrar a melhor forma de encaixe, preencher o vazio entre as árvores, perceber o peso do ar, encontrar o ângulo ideal do galho em relação ao chão, agrupar a quantidade de feno ideal. Tudo isso era construído intuitivamente por nós, aprendizes.

Hoje sei que a criança que cresceu em mim é real, e ser verdadeiro e completo, mesmo que na busca sem fim, é de emocionar. É olhar para trás e saber que a essência esteve sempre presente, da forma mais pura e verdadeira que o coração pode sentir. Construir cabanas é lúdico e didático ao mesmo tempo, no melhor sentido de ambas as palavras. É experimentar matemática, física, arquitetura, engenharia, educação física, ciências sociais, biologia e tudo mais; é ser rei, rainha, índio, lenhador, astronauta, desbravador, cientista e sonhador. É ser criança.

Clarisse Bueno Romeiro

 

Eu nunca fui muito de me enfiar no mato para construir cabanas mas me lembro da vez em que toda a minha sala se uniu para fazer a melhor cabana de todas. Ela era enorme, se não me engano tinha dois andares e uma pista de corrida de pinha. Foi um grande empreendimento. Quando ela finalmente ficou pronta, ficamos orgulhosíssimos. Infelizmente ela não durou muito e, rapidamente, perdemos o interesse. Mas é uma das minhas melhores lembranças da Ágora, que sempre vou guardar com muito carinho.

Cecilia Ciochetti

 

 

O que a experiência de construir cabanas trouxe para a sua vida?

O ato de construir sempre é prazeroso, sempre elucidativo e acrescenta muitos valores, para não dizer que estou entrando em um clichê, tomarei o caminho do que é o conhecimento.

Para se obter um conhecimento é necessário ter contato com algo novo aos nossos sentidos, algo que nos traga o desejo de conhecer. Para Freud, existem diversas fases do homem ao conhecer e conhecer-se, é preciso se conhecer para depois conhecer o mundo. Nossa alma serve de central de comando ao aparelho que obedece tudo o que lhe é imposto. Construir passa a ser se construir, afinal, é preciso pensar, organizar os pensamentos, estabelecer métodos e ferramentas para poder obter um bom resultado. Temos aqui uma espécie de projeto, que deve contar com diversos saberes para que o mesmo evolua.

“É construindo é que nos construimos”

Jonas Kucinski

 

IMG_1577Construir cabanas foi algo inédito na minha infância… Tenho poucos amigos que já construíram uma cabana de feno… No máximo conheço quem construiu aquelas cabanas de lençol presos em sofás e cadeiras….
Refletindo agora, aquela brincadeira era muito educativa! Tínhamos que nos organizar como equipe, pois cada um precisava fazer uma atividade como recolher feno, buscar madeiras, limpar o local, além de planejar como a cabana seria construída de forma a ficar em pé. Tinha que ter uma entrada, um espaço que chamávamos de sala e um quarto. Na verdade, nem sei como naquela idade conseguíamos construir cabanas. Será que consigo fazer uma cabana hoje??? Naquela época, era pura diversão! Acho que a parte mais divertida era a própria construção da cabana em si do que quando ela já estava pronta e brincávamos dentro dela. Na verdade, acho que perdia um pouco o encanto quando ela estava pronta…rs. Mas, daí vinha uma chuva mais forte e destruía a nossa construção. E, começávamos a montar de novo…. Delícia de tempo que passou há tanto tempo…. Agora brincamos de montar a nossa própria casa, a nossa família e lutar para que tudo permaneça em pé!

Carolina Izukawa Hata

 

Da construção de cabanas

Utopia é um conceito que diz de um lugar que (ainda) não existe, palavra que deriva do grego ou (não) + topos (lugar). Diferente do território físico, a utopia abriga o lugar que se deseja, o lugar simbólico dos ideais, dos valores mais caros. O não-lugar utópico não é o impossível mas a meta, o objetivo.

O antropólogo francês Marc Augé fala do não-lugar como um espaço de não relação, que não produz sentidos coletivos, não permite lastro social e, assim, não permite processos de subjetivação e fortalecimento das identidades a partir do encontro entre o sujeito e seus outros. Não é esse o meu entendimento aqui. Ao contrário. Tomo o não-lugar, ou o lugar que não existe, como espaço privilegiado de processos de subjetivação a partir de negociações de ideais e valores em um movimento de criação coletiva de um lugar que ainda não existe, a utopia.

Hoje, lembrando das cabanas na Escola, penso esse processo muito além de madeira e feno. Construir cabanas é imaginar, criar, desejar, projetar; mas é fazer isso tudo com o outro, negociando cada passo, convivendo e produzindo junto. Construir cabanas é fundar e alicerçar a utopia.

Julia Bardi

 

A minha experiência em construir cabanas ou “cabaninhas”.

O quanto as cabaninhas foram marcantes da minha vida, a ideia de fazer algo com os amigos, construir algo, criar com a nossa criatividade e utilizando os recursos encontrados na natureza, uma combinação perfeita.

Claro que minha mãe reclamava um pouco do estado das roupas, e do barro no carro. Mas, tudo bem, ela entendia.

No meu caso particular, as cabaninhas renderam MUITO mais do que uma saudável brincadeira de criança. Tornei-me engenheiro, projetei e construí a casa da minha mãe e hoje que moro em um apartamento estou morrendo de vontade de comprar um terreno para construir outra casa.

É, sou engenheiro mecânico, com mais de trinta anos nas costas e ficando de barba branca, mas continuo querendo brincar de cabaninha…

Marcio Crivellari
15 de março de 2016

 

IMG_1465É tudo muito objetivo e racional.

É uma matemática rigorosa.

Escolhemos o melhor terreno; plano, de preferência.

Há de se procurar galhos com diâmetro seguro para estrutura, com reparo ao fato de que o comprimento determinará o pé direito.

Na sequência vêm os gravetos menores, com ramificações servindo de travamento.
Devem formar uma malha que receba o feno.
O cálculo do feno é meticuloso, deve cobrir a área externa por completo.

E está pronto, e eterno, o abrigo.
Um abrigo para o coração.
Um alicerce do que se tornou minha profissão.
Porque CONSTRUIR é apaixonante.

Olívia, arquiteta, formada na Ágora em 2002.

 

Eu adorava criar e construir cabanas na escola. Eu me sentia empoderado e ficava muito feliz de ter um canto para mim e os meus amigos. As cabanas também me davam uma sensação de segurança – pelo menos, até o dia que a Terê nos fez uma ilustre visita, mas escorregou no barranco e quase derrubou o telhado de um deles! Apesar do abalo na Terê, a casa, ups, a cabana não caiu! Hoje em dia, persiste a sensação de que sou capaz de criar e  fazer coisas – inclusive, eu construí a minha casa recentemente! Além disso, ficou uma vontade de continuar aprendendo a como fazer fundações na segurança do chão, janelas para o mundo e tetos para me abrigar e receber pessoas queridas.

Sasha Hart

 

Construir uma cabana acabou sendo uma influência vinda dos mais velhos, através da qual percebemos que tínhamos que ter a nossa também. Começava com um tronco caído, que era apoiado na árvore e como os galhos, cada aluno se “apoiava” no outro para formarmos algo em grupo, em classe. E, o resultado foi a cabana. Gostaria muito de me lembrar o dia em que apoiamos o primeiro tronco mas também o primeiro que caiu para reformarmos a cabana, como fazíamos o armazenamento de pinhas e olhos de cabra, escondê-los para ninguém tirar, o modo que estruturávamos os dormitórios (quem era menor, tinha o menor espaço e vice-versa).

Foi a melhor experiência de coletivo que tive, apesar de sempre ter brigas para ver quem vigiava na hora livre, ou conflitos hierárquicos. A nossa era a mais alta do lado direito da estrada, nosso ponto de segurança. Quando tínhamos frio, íamos para lá ficar todos juntos, O texto pode estar meio desorganizado pois são muitas memórias, desde o dia em que minha mãe foi vê-la e apresentei o lugar de cada um.

Criaram-se laços no coletivo das cabanas, amizades “intercabanais”, era uma família. Hoje, enxergo as cabanas como uma proposta pedagógica sensacional; justamente pelo fato de crianças construírem algo juntas, uma apoiando a outra, carregando materiais juntas, construindo uma independência, seu “conjunto ocupacional” na hora livre.

Camilo Kuasne Anderson

 

IMG_1471Há muito tempo não pensava nas cabanas, quando relembrava meus tempos de Ágora, de minhas odisseias “agorianas” me vinha à cabeça as árvores, as histórias de roda, os trabalhos sobre galinhas….

Soube da vontade da Escola em saber o que acontece no coração de quem construía cabanas, e por conta disso comecei a refletir sobre. Construir cabanas é sem dúvida uma das melhores invenções feita por alunos na Ágora, mas em nossos corações não sabíamos disso.

No conto “As margens da alegria” de Guimarães Rosa, o personagem O Menino se integra a paisagem do sítio dos Tios até um ponto em que ele acaba sendo a paisagem também. Era semelhante a esse sentimento de infiltração a paisagem, que construíamos cabanas, o coração almejava pela enorme hora livre que teríamos na hora do almoço, a vontade vinha de dentro.

Não passava pela nossa cabeça que construir cabanas iria nos ajudar a sermos melhores pessoas, mais organizadas, ou futuramente iriamos ser arquitetos. Era tudo parte daquele meio, daquela experiência…. Construir cabanas era tão real quanto escrever relatórios (só que bem mais divertido), ou era tão natural quanto saber o horário da aula sem precisar de relógios.

Um fenômeno. Todos os alunos construíam, não importava sua classe, idade… Era parte do coletivo, viver em torno de cabanas. Dentro de tudo isso, nós crianças montávamos com nossas mãos um mundo nosso, onde tínhamos a possibilidade de demolir, carregar peso, sentir o suor e o cansaço, porém toda a alegria de ver madeiras empilhadas serem “casas”, esconderijos…..

Até hoje eu não entendo o que passava na minha cabeça para usar todo o tempo livre na construção de cabanas. Talvez por que aquele era meu estado natural, onde realmente poderia ser criança, onde acreditava que olhos-de-cabra eram verdadeiras riquezas, onde terras valiam muito, onde guerras aconteciam… A motivação era ser criança e estar ali presente, sendo.

Quero mandar um enorme abraço para esta Escola tão especial, que continue sendo permeada por cabanas, crianças, professores, funcionários brilhantes! Parabéns Terê por resistir e persistir! Um abraço Agoriano,

Isabela Alves

 

Eu lembro bem das cabanas… era da minha época. Fazíamos com galhos e feno. Hoje, as crianças brincam em casinhas de boneca no quintal de casa… Nós brincávamos no meio do mato. Era um mundinho à parte. Até hoje eu gosto de brincar de cabaninha… mas agora de lençol e almofadas…

Fabiane Endo

 

Cabanas, feno e galhos de pinheiro!!! Que saudades!!! Acho que era um ótimo exercício, trabalho em equipe!!! A busca por um espaço reservado que criamos!!! As ideias e criatividade para tornar feno e galhos em uma “casa” consistente e que resistisse a chuva!!! Mais do que lazer envolvia um trabalho em equipe!!! E satisfação ao fim!!! Que isso continue por muitos anos!!!

Luís Henrique Patarra

 

IMG_1738A CABANA

Por que fazer uma cabana?
Por que não jogar bola, brincar de pega-pega, esconde-esconde?
Porque cabana é coisa séria, não é brincadeira (embora seja).
Cabana é um trabalho em equipe, Fortalece a amizade, é a incerteza, o desafio, a confiança no amigo.
Será que vai dar certo?
Será que tá firme? E se chover?
De repente lá está ela, nosso espaço dentro da escola.
Os amigos veem ver, gostam da ideia…
Começam a fazer também, uma, duas, três…
Pronto, nasce uma tribo dentro da nossa
ÁGORA.

Paulo Eduardo Hespanhol

 

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